EPIDEMIAS DE GRIPE HUMANA
Há vários milênios já se descrevia uma doença com aspectos muito semelhantes ao quadro clínico que hoje entendemos como sendo o da gripe. As características peculiares dessa doença, como a alta infectividade e a capacidade de debilitar as pessoas, já se faziam conhecer desde os primórdios.
Dois papiros datados, respectivamente, de 1700 a.C. e 1500 a.C. enumeram os males sofridos pelos egípcios, nos quais se incluem os sintomas do que hoje chamamos de gripe. Em 412 a.C., na Grécia, Hipócrates – o pai da medicina – falava de uma doença respiratória que durou algumas semanas, matou muitas pessoas e, então, desapareceu. Esta foi a primeira descrição científica da influenza.
Já a primeira descrição característica de uma epidemia, onde os sintomas de gripe mostraram-se mais convincentes, data de 1173-74. De 1200 a 1500, apesar de se ter conhecimento de alguns possíveis surtos, os relatos da doença são muito vagos, ficando difícil uma avaliação mais detalhada desse período.
Foi a análise dos episódios de gripe no século XVI que possibilitou um melhor conhecimento do seu comportamento cíclico e a chance de existir um intervalo constante entre os períodos de maior incidência. A partir desse século, a avaliação desses episódios mostrou que aproximadamente a cada trinta ou quarenta anos surgem epidemias que se alastravam pelos continentes.
A despeito da dificuldade e da morosidade de deslocamento das pessoas entre os países e continentes, bem como em decorrência da precariedade dos meios de transporte, ficou evidente a capacidade da doença em transpor essas dificuldades e alastrar-se pelos diversos povos.
Além da já comprovada infectividade da doença, passou a chamar atenção, nessa época, o elevado índice de mortalidade provocado pela gripe, capaz de dizimar algumas cidades importantes e populosas da Europa. Esses surtos epidêmicos periódicos aconteceram durante os séculos XVI e XIX, até que ao fim deste tivemos pela primeira vez uma pandemia que alcançou praticamente todos os países do mundo.
Com toda a certeza foi no início do século XX (1918), com a Gripe Espanhola, que foi a primeira vez que se conheceu uma pandemia e descreveu-se a gravidade da doença. Estimou-se, nessa pandemia, que cerca de 50% da população mundial tenha sido infectada, 25% tiveram infecção clínica e, segundo estimativas, a mortalidade em dois anos teria superado 40 milhões de indivíduos.

Fonte: http://www.enc.org/
Da mesma forma que nos séculos passados, os períodos pandêmicos passaram a ocorrer com intervalos constantes, agora, de em média vinte a quarenta anos. As pandemias do século XX vitimaram mais pessoas que as duas Guerras Mundiais juntas.
A Gripe Espanhola teve essa denominação não porque a doença tenha se iniciado nesse país, mas por que a Espanha não teria escondido os casos que assolavam a sua população, ao contrário da maioria dos outros países e foi onde primeiramente se falou do impacto da doença.
No Brasil, a Gripe Espanhola teve significativa importância epidemiológica, onde uma série de fatos históricos e pitorescos ocorreu em 1918. Considerando os dez estados brasileiros, além da cidade do Rio de Janeiro, que contabilizou 12.388 falecimentos pela influenza, e o estado de São Paulo, 12.386 óbitos, estima-se que aproximadamente 35.240 mortes vitimaram os brasileiros durante a epidemia de gripe espanhola.
Mesmo com a criação, pela Organização Mundial de Saúde, de uma sistemática rede de vigilância epidemiológica da gripe em todos os continentes no ano 1947, outros surtos pandêmicos ocorreram, todos causados pelo vírus influenza A, em virtude desse vírus ter maior capacidade de mutação.
O vírus influenza que causou a pandemia de 1957-58, descoberto na China em fevereiro de 1957, alcançou Hong Kong em abril e alastrou-se rapidamente a outros países. Em cerca de seis meses a epidemia havia se expandido pelo globo. Na maior parte dos países, a infecção foi observada primeiramente em portos, áreas urbanas e, posteriormente, em áreas rurais, atingindo a princípio escolares, crianças na pré-escola e adultos.
Posteriormente, evidenciou-se um surto de influenza, que começou na China em julho de 1968, espalhou-se por Hong Kong no mesmo mês, para iniciar uma pandemia de 500 mil casos. Já no final de maio de 1977, um novo surto de influenza foi relatado em três províncias Chinesas. Em novembro outros surtos foram notificados em diversos países.
A mais recente ameaça de pandemia do século XX e XXI é a chamada Gripe das Aves. Causada pelos vírus influenza antes detectado somente em aves, estes estão sendo isolados em seres humanos que convivam com esses animais. Tem infectado habitantes de diversos países, especialmente os localizados no Oeste do Pacífico, levando a um grande número de hospitalizações e alta mortalidade. Para prevenir a disseminação do vírus, milhares de aves têm sido sacrificadas. Embora não transmissível de uma pessoa a outra, todas as aves são sacrificadas e incineradas por medida de segurança.
A vigilância epidemiológica da gripe expandiu-se consideravelmente nos últimos anos, inclusive no Brasil, o que facilita a identificação dos vírus circulantes. Mesmo com o melhor conhecimento da circulação viral e conseqüentemente, a melhor adaptação das vacinas e o surgimento dos medicamentos antivirais, não fica excluída a possibilidade de que no início deste século venhamos a ter nova pandemia.
Apesar da comprovada evolução tecnológica da medicina nas últimas três décadas, tivemos nesse período, no mundo, cerca de 30 milhões de mortes causadas pelo vírus influenza. Enquanto, no início do século XX, o vírus demorava cerca de quatro meses para circular por todo o mundo, hoje, com o extraordinário avanço dos meios de transporte, essa circulação se dá em menos de quatro dias, o que, sem dúvida dificulta o controle da doença.
A vacinação em grupos de risco, principalmente entre os idosos, deve ser incentivada, pois comprovadamente é a melhor forma de medida preventiva. O Brasil, com a criação do “Dia de Vacinação dos Idosos”, destaca-se hoje como um dos países de maior cobertura vacinal.
A comunidade científica mundial tem concentrado esforços para minimizar a possibilidade de nova pandemia, ao mesmo tempo que vem elaborando estratégias para o caso desse fato ocorrer. O advento dos medicamentos antivirais deve se constituir em importante recurso para evitar que novas pandemias venham a ocorrer.
Epidemias de influenza atacam centenas de pessoas por ano e apresentam-se como um grande problema sobre a produtividade de um país na medida do absenteísmo de seus trabalhadores. Segundo dados atuais da OMS, a gripe atinge 10% da população mundial anualmente, sendo que 1,5 milhões de pessoas morre por causa de complicações geradas pela doença. No Brasil, a estimativa é de que o número de mortes em função da gripe seja da ordem de 10 a 15 mil por ano. Hoje cerca de 20 a 40 mil pessoas também morre vítimas das complicações do vírus influenza nos EUA. |